Diário de Bordo - 22/05/2008
Domingo, final da tarde, Bosque dos Italianos. O antigo recém formado grupo, compania, ou seja lá qual for a denominação que as pessoas queiram dar a esses seres humanos (?) que resolveram se (re)unir depois de alguns anos de intervalo, para espalhar um pouco dessa loucuarte que eles têm de sobra.
"Então é isso galera. Vamos escrever um Diário de Bordo. Cada um escreve o seu, coloca lá seu dia, escreva a respeito do retorno do grupo, do bosque, etc."
Hein??? Diário de Bordo??? Tá maluco Niltão? Não sou escritora não! Tá certo que há uns 4 anos atrás eu escrevi uma ceninha, não sei como, mas hj tá td enferrujado...
"Galera, escrevam o que vier na cabeça, escrevam!"
Puts Niltão, acho que não vai rolar... Não tenho o dom pra ser escritora. Até rabisco em uma agenda um pouco do meu dia-a-dia, mas nada muito profundo. Apenas relatos, sem essa história de impressões e sentimentos. Nem as emoções da minha cabeça eu consigo decifrar, seria impossível defini-las e coloca-las no papel!
"Vai lá galera. Vamos tentar. Não precisa mostrar pra ninguém, basta escrever o Diário".
O que? Não precisa mostrar pra ninguém? Agora sim to começando a gostar da idéia...
Antes de ir pra casa fiquei sabendo do que tinha acontecido com a Paulinha. Fiquei muito triste com td que ela e o Deco estão passando. Fui pra casa, ainda um pouco abismada. Sentei um pouco sozinha pra tentar digerir a história toda.
Muitos minutos depois, um pouco mais conformada, resolvi começar o meu "Para Casa".
Peguei um caderninho velho que utilizei algumas vezes pra colocar alguns pensamentos vagos e uma caneta BIC, cuja carga estava quase no fim. Eu sempre quis acabar com a carga de uma BIC. Quem nunca quis acabar com a carga de uma BIC ou usar até o fim uma borracha daquelas brancas que têm a capinha verde?
Empolgada com a possibilidade de deixar vazia a pobre caneta, abri o caderno e começei..."Diário de bordo"...
"Diário de Bordo".
Um título, bom começo.
Mas e depois?
Lembrei-me que o único diário de bordo que eu havia lido fo um que meus amigos da facul escreveram no carnaval em Votuporanga. Não mto criativo, com mtos ditados populares e piadinhas do tipo "eu como maça, Marília Pera", "eu tomo chá gelado, Clark Kent". Apesar da repetição, devo confessar que dei boas risadas! Muitas páginas com "acontecimento, desenrolo, conclusão". Com certeza o efeito de certos "líquidos embelezantes", como diriam eles, contribuiu para a formação daquele diário.
Sem mais divagações, voltei ao meu "Diário de Bordo". Quando fui me concentrar e pensar no que escrever lembrei do Niltão. Ele dizia: "escreva sem pensar, escreva sem parar, assim vc não dará chances ao seu crítico interior".
Hum....escrever sem pensar e sem parar...Vamos lá...
Minha caneta BIC estava quase tocando a folha do meu caderno.
"Trimmmm", "trimmmmm".
Meu celular.
"Alô, Rá?". "Alô?".
Era meu primo Raoni. Não ouvi nada do que ele disse, então resolvi ligar na casa dele. Minha madrinha atendeu e me disse que o Rá estava no camping ainda. Então vieram as palavras que ainda hj ecoam em minha cabeça...
"Carol, o Patrick sofreu um acidente"...
Pausa.
Aquela pausa que dispensa que o final da frase seja dito...
"Carol, o Patrick sofreu um acidente...e ele morreu".
O que? Morreu? Como assim morreu? Acabou? É isso? Acidente? Acidente do que? De carro?
Puta que pariu, caralho, filho da puta, vai tomar no cú, desgraçado!
Desculpa mãe. Eu também acho horrível mulher que fala palavrão, mas minha indignação e tristeza se exteriorizaram assim.
Liguei pro meu primo, ele e o Patrick eram amigos de faculdade. Domingo passado mesmo, no dia das mães, eu estava vendo as fotos de formatura do Rá e quando vi uma foto dele com o Patrick comentamos como ele era uma pessoa boa. Ele era mto agradável. Aquele tipo de gente que logo que vc conhece vc se sente a vontade e parece que são amigos há anos, sabe?
MORTE...esse tipo de coisa me revolta. Com tanta gente ruim no mundo, a morte escolhe as pessoas boas? De boa essa tal de morte não tem nada!
A indignação que senti hj foi bem parecida com a que senti alguns anos atrás em uma apresentação no Boldrini. Ao ver aquelas crianças inocentes, com uma vida toda pela frente, definhar em virtude do câncer, me revoltei. Meu coração deu um nó. Um nó que nem o pranto desatou. Um nó misto. Tristeza, revolta e mtas dúvidas. Sim, muitas d´puvidas.
Pq essas crianças?
Pq leucemia?
Pq metástase?
Pq o Patrick?
Pq a Paulinha?
Muitas pessoas dizem que o mundo está perdido. Que as pessoas mudaram seus valores. Que o bolso é mais importante que o coração. Que o "eu" é mais valioso que o "nós".
Será que essa loucura humana contagiou Deus? Será que os valores Dele tb estão inertidos?
Com todas essas questões, com todos os meus pensamentos inacabados, não tive condições de começar o meu "Diário de Bordo", nem de pensar no teatro, na música ou no bosque.
Apenas após 4 dias de noites mal dormidas, trabalhos inacabados e um pouco de introspecção foi que consegui começar o meu "Para Casa".
O primeiro dia de diário foi rabiscado em um chalé no meio do mato. Confesso que o ar puro da montanha, o cheiro da natureza e o canto doa pássaros me inspiraram a princípio.
Contudo, mesmo diante de toda essa beleza, a única coisa que consegui foi colocar alguns acontecimentos e pensamentos. Tudo muito desorganizado.
Um título e quatro páginas de total desorganização...já é um começo...
Ah, consegui também acabar de vez com a minha BIC!
Naturez, um título, quatro páginas de pensamentos desorganizados, e uma carga de BIC esvaziada.
Eu diria que é um bom começo para uma iniciante.
B.
22/05/2008
sexta-feira, 13 de junho de 2008
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