Revirando um caderno antigo encontrei umas páginas que realmente estavam perdidas. Foram escritas há quase um ano, mas depois da conversa que tivemos hoje, tive vontade de compartilha-las. Eu escrevi daquele jeito, "sem parar", mas também sem saber que o "sem parar" era uma técnica que realmente existia. Para mim, naquela época, escrever sem parar era apenas uma maneira de extravazar e tirar de dentro de mim um pouco da angústia que crescia cada dia mais.
São dois textos. O primeiro escrevi no dia 26 de agosto de 2007, e o segundo no dia 03 de outubro do mesmo ano.
Angústias
"Eu estava pensando sobre minha vida...Camping, meus amigos, teen art, e tudo quilo que deixei para trás. Estou tão cansada de tudo...Não passo um dia sequer sem desejar voltar no tempo para poder viver todas aquelas coisas novamente. Naqueles dias, eu era uma pessoa tão cheia de esperanças e tão sensível que eu realmente acreditava que eu podia ser diferente, que era capaz de não "cair no sistema".
Hoje vejo que sou igual a todos, que não tenho mais a esperança e os sonhos que me faziam tão feliz no passado. Infelizmente eu caí no sistema e agora odeio a pessoa que me tornei. Tão conformada e apática.
Eu daria tudo para ter de volta meu antigo eu. Época na qual uma roda com os amigos rendia conversas muito profundas, e a vontade de não ser apenas mais um na multidão, contribuindo para que o mundo ficasse cada vez mais podre, era comum a todos.
É, meus amigos teenartianos me fazem uma falta que eles nem imaginam. Acho que o tempo nos levou a esperança e a crença de que nossa vontade de mudar as coisas e de fazer a diferença nos eram suficientes para que nossos objetivos fossem alcançados.
Hoje me vejo presa em uma vidinha comum, fazendo uma faculdade comum, rumo a um destino comum, e me pergunto se ser comum é suficiente para mim. Com certeza fazendo teatro e levando esperança e felicidade para as pessoas, assim como fiz tantas vezes em lugares como o boldrini e o Lar dos Velhinhos, eu seria muito mais realizada e a minha existência nesse lugar teria muito mais sentido, não seria em vão.
Mas como reencontrar uma parte de mim que a cada dia se perde mais e mais?
A culpa é só minha...Me deixei levar por esse sistema - maldito sistema! - e hoje não consigo mais me encontrar. Tenho certeza que se em 2005, quando abandonei minha maior paixão, eu tivesse lutado para ser mais forte e assim conseguir manter minha prioridade, nosso grupo jamais teria se acabado e hoje essa angústia não teria lugar dentro de mim.
B.
26/08/2007."
Ironias
"Esperanças e lembranças são o combustível de minha alma. Ou pelo menos eram. Com o passar do tempo as lembranças foram tomando o lugar da esperança que hoje já quase desapareceu. Tornou-se uma pequena parte de mim e deveria chamar-se ilusão. A esperança traz consigo um brilho no olhar, uma alegria e uma força de vontade para lutar e alcançar. A ilusão é apenas ilusão. É um engano. Dificilmente se conquista.
Lembro-me da saudosa época na qual se faziam planos e mais planos para responder à pergunta "o que vou ser quando crescer?". O tempo passou e o futuro foi traçado. Por mais irônico que possa parecer, a vida que eu terei, da qual muitas vezes me queixo, foi uma escolha minha. Unica e exclusivamente minha.
Tantas vezes, ao fazer besteiras, me perguntei "onde eu estava com a cabeça?", mas com certeza, o destino que escolhi para mim é mais digno dessa pergunta do que qualquer outra coisa que até hoje fiz em minha vida. Inúmeras vezes tentei gostar, tentei fazer de minha atividade a melhor do mundo, mas as tentativas fracassaram.
Cada dia me decepciono mais com a pessoa que estou me tornando. Olho para trás e sinto que a pessoa que eu era - sensível, sonhadora e otimista - não se orgulha da pessoa que hoje sou - indiferente, acomodada e desiludida. Isso faz com que, mais do que nunca, eu viva ao menos metade do meu dia de lembranças. Lembro-me tanto da minha felicidade ao sonhar com o meu futuro, lembro-me das pessoas que eu tinha ao meu lado e sinto um aperto no peito indescritível. Espero que um dia eu encontre em mim a Behold que se perdeu.
Penso ser injusto o rumo que minha vida tomou e gostaria muito de voltar no tempo, mas não posso. Sendo assim, gostaria então de me conformar com a situação e me concentrar para aproveitar ao máximo a oportunidade que estou tendo e que muitos não têm, a de fazer uma faculdade. Reconheço que sou privilegiada e confesso me sentir culpada por não dar o valor que esse caminho que eu chamo de errado tem e merece.
Quem diria que uma garota que na escola parecia ter um futuro promissor iria se tornar uma pessoa tão confusa e insatisfeita? Isso tudo parece uma grando ironia.
B.
03/10/2007."
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