O céu estava azul, sem muitas nuvens. Eu estava naquela mesma clareira. O gramado era baixo e úmido, como se tivesse chovido ali há pouco tempo. Tirei meu chinelo e dei uma volta. Atrás de mim tinha uma trilha que levava para o interior de uma floresta. Eu não havia reparado nela da outra vez. Entrei na trilha. O chão era de terra e estava um pouco molhado e em minha volta haviam muitas árvores. Subi em uma árvore que estava a minha direita, me sentei e encostei em um galho. Comecei a sentir um cheiro de flor muito bom. Dama da noite. Pareciam damas da noite, apesar de estar de dia. Desci da árvore e continuei minha trilha. Andei lentamente, com os braços abertos e sentindo uma brisa que trazia um cheiro muito bom. Vi um esquilo em uma árvore e tive que abaixar para desviar de um cipó.
Então avistei uma clareira. Nela havia um portão muito grande, alto demais. Aproximei-me e percebi que seu guardião era o Valmir. O mesmo Valmir da Defensoria. Quando cheguei ele me cumprimentou. Usando o mesmo óculos e com o mesmo olhar amigável de sempre ele abriu o portão para mim.
Entrei em um jardim maravilhoso. Ele tinha muitas flores coloridas e árvores em volta. Senti muitos cheiros bons e vi uma árvore antiga, linda, com o tronco largo. Dei um abraço nela e ela pareceu retribuir meu abraço. Continuei andando e passei por uma ponte em forma de arco que cruzava um lago. Li uma placa que dizia “Jardim da Criatividade” e logo na frente vi uma casa.
A casa era linda, retangular, bem comprida e com dois andares. Era uma casa antiga, parecida com aquelas da época do café. Era branca e as janelas compridas eram de madeira. Entrei e subi uma escada que tinha degraus largos de madeira bem envernizada. Do lado direito tinha um corrimão grosso de madeira trabalhada e do lado esquerdo uma parede com fotos penduradas em porta retratos. As fotos eram em preto e branco, de pessoas, mas não reparei em suas feições, só me lembro que usavam roupas antigas. Continuei subindo até que cheguei em uma sala muito iluminada. A iluminação vinha do sol. Ela tinha paredes de vidro. Na minha frente tinha um telescópio preto. Virei de frente para a sala. Ela era coberta com um tapete branco daqueles bem fofinhos de pelinho. Do lado esquerdo tinha uma estante cheia de livros de capa dura que ia até o teto. Tinham também algumas almofadas no chão. Do lado direito tinham duas poltronas. Sentei-me na poltrona da direita. Ela era azul clara, muito aconchegante e gravado em dourado no encosto lia-se “Carolina”. A vista era linda, eu podia ver meu jardim e o reflexo de minha casa no lago. O jardim visto de cima era muito maior do que a pequena parte que eu conhecia.
Eis que surge ao meu lado meu sábio interior. Antes dele chegar eu havia imaginado que ele seria algo parecido com um mago, de barba longa branca e óculos, com um olhar misterioso. Contudo, quando ele chegou, para minha surpresa, era meu avô Ivo. Ele estava com uma calça bege e uma blusa de lã marrom. Seus fartos cabelos brancos disciplinadamente penteados para trás como de costume. Ele me olhou com seus olhos felizes e eu tive vontade de abraçá-lo. Muita vontade. Mas não abracei. Ele me disse apenas “esperança” e se foi. Desejei que ele ficasse mais tempo, mas era tarde. Eu estava sozinha de novo. Levantei, olhei a vista novamente e desci pela escada de madeira.
Passei pela ponte em forma de arco e fui para meu jardim. Andei pela pequena parte do jardim que eu conhecia. Senti novamente o cheiro das flores. Passei pela minha árvore preferida e cheguei no portão. Valmir abriu o portão para mim e eu segui pela trilha. Abaixei para passar pelo cipó e andei no chão molhado, ouvindo os pássaros e vendo algumas borboletas que pareciam me acompanhar pelo caminho. Saí para a clareira e não consegui pensar em nada. Apenas em meu sábio interior. Esperança. Porque esperança? Acho que preciso muito mais de algo como iniciativa, força de vontade ou determinação para encontrar meu caminho. Mas mesmo assim ele me disse apenas esperança. Fiquei na clareira pensando na esperança e desejando voltar para meu jardim e para minha casa.
B.
29/06/2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário